Para 9 entre 10 torcedores, Copa deixará imagem negativa

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Desde que entrou no Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo, há pouco mais de dois anos, o ex-craque Ronaldo foi um pregador incansável do otimismo em relação ao evento — gravou campanha do governo federal, promoveu o torneio no exterior e até apareceu numa célebre propaganda da Brahma, vestido como um Tio Sam verde e amarelo, num cartaz que provocava quem duvida do sucesso do Mundial. Na última terça, porém, Ronaldo mudou de tom e lamentou publicamente o aperto para concluir os estádios a tempo. “Acho uma pena. É o nome do nosso país lá fora. Não é bom passar essa imagem para o mundo”, disse, num evento da própria Brahma no Maracanã, o palco da final da Copa. Escalado pela presidente Dilma Rousseff para ser o homem forte do governo no Mundial, o ministro Aldo Rebelo é outro que se abateu com os problemas desta reta final. Se antes zombava das preocupações com os prazos (chegou a dizer, no Senado, que os atrasos eram só “impressão” da população), o ministro agora se mostra alarmado com enroscos como o de Curitiba, que escapou de ser cortada pela Fifa na última terça. “Devemos confiar desconfiando. É preciso trabalhar duro”, alertou. Até Jérôme Valcke, o irritadiço francês que serviu de xerifão da Fifa nos preparativos para o evento, tentou levantar a bola do Brasil num passado recente. “É muito difícil entender por que, em um país que vive e respira futebol, algumas poucas pessoas continuam a enxergar apenas aspectos negativos, mesmo que não haja nada de negativo”, escreveu, há um ano, num texto divulgado no site da Fifa. Ao anunciar a manutenção de Curitiba entre as doze sedes, na semana passada, num seminário em Florianópolis, Valcke era a personificação do mau humor, destilando azedume a cada declaração sobre os compromissos assumidos — e descumpridos — pelos brasileiros.

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Os sinais de apreensão revelados por Ronaldo, Aldo Rebelo e Valcke, as personalidades mais emblemáticas da contagem regressiva para a Copa no Brasil, se refletem também na opinião pública. Faltando menos de quatro meses para a abertura, o retorno da grande festa do futebol ao país, mais de seis décadas depois do primeiro Mundial realizado por aqui, desperta sentimentos ruins no torcedor. Para mensurar esse clima de pessimismo, o site de VEJA reeditou uma pesquisa feita originalmente em julho de 2011, convidando os leitores a opinar outra vez sobre a Copa e o país-sede. O novo levantamento, realizado pelo Departamento de Pesquisa e Inteligência de Mercado da Editora Abril, registrou as impressões de 4.381 pessoas de todas as regiões brasileiras, que responderam a quinze questões ligadas ao evento entre os dias 17 e 19 de fevereiro. Se os resultados da sondagem de três anos atrás já eram ruins, o quadro que se desenha na nova pesquisa é extremamente preocupante para o governo e a Fifa. A visão dos entrevistados sobre a organização do Mundial piorou em todas as perguntas repetidas do levantamento anterior. Em 2011, 79% diziam que o país deixará uma imagem negativa na Copa; agora, nove em dez acham que o saldo será ruim para o país. Se antes 88% achavam que nem todas as obras ficarão prontas a tempo, agora 94% têm essa convicção. E se 32% pensavam que o evento deixará coisas boas ao país (excluindo-se os estádios), hoje esse contingente é de apenas 13%. Questionados sobre o que sentem quando pensam na Copa do Mundo, os entrevistados trocaram a “preocupação”, resposta mais citada em 2011, com 58%, pela “vergonha”, com 55%. No total, 87% afirmam que não estão satisfeitos com a realização do torneio no país (antes eram 73%) e 85% garantem que não estão ansiosos pelo início do evento (há três anos eram 75%).

Vitrine do governo – A percepção negativa do brasileiro em relação à Copa é ruim para todo mundo: para as sedes, que podem ficar sem o retorno financeiro sonhado quando conquistaram um lugar no evento; para a organização, que enfrentará um contexto desfavorável na hora de realizar o torneio; para a Fifa, que se arrisca a comprometer o sucesso de seu produto mais rentável; e para os patrocinadores, que gastaram fortunas para atrelar suas marcas a um Mundial cercado de dúvidas e críticas. Mas ninguém tem mais motivos para se preocupar do que os governos, Estados e municípios, que bancaram nada menos de 93,7% dos 8,9 bilhões de reais gastos até agora nos estádios (a previsão inicial era de 2,6 bilhões). Curiosamente, é quase o mesmo porcentual de pessoas que se dizem contra o uso de dinheiro público na construção e reforma das arenas (94%, contra 85% em 2011). Outro dado é especialmente preocupante para quem apostou tão alto — e torrou tanto dinheiro — nas obras da Copa. Questionados sobre quem será o culpado caso o Mundial seja uma decepção, 94% dos entrevistados apontaram o governo federal, contra apenas 12% que citam a Fifa. Há três anos, o governo era visto como principal responsável pelo evento por 79% das pessoas. A ligação cada vez maior entre a imagem da Copa e o governo, diga-se, é mais do que compreensível. Na tentativa de propagandear a Copa como catalisador do desenvolvimento, principalmente na área de infraestrutura, o Planalto ampliou sua interferência na condução dos preparativos para o evento. Em ano eleitoral, a expectativa era de que a festa serviria de vitrine para projetos de mobilidade urbana e modernização dos aeroportos. O ritmo capenga desses projetos e o cancelamento de alguns deles esvaziaram o argumento oficial em defesa dos gastos com o evento.

Reprodução

Ronaldo Tio Sam: 'Pessimistas, pensem bem'Ronaldo Tio Sam: ‘Pessimistas, pensem bem’

​Não haverá revolução na infraestrutura em função da Copa. Os avanços modestos — em alguns casos, na base do “puxadinho” — dificilmente serão o bastante para convencer a população, que se vê, mais uma vez, diante da concretização de suas piores expectativas sobre o país e seus governantes. Quando a Fifa confirmou que o Brasil receberia o torneio, em 2007, o brasileiro não comemorou: ele desconfiava que as obras acabariam custando muito mais que o prometido, estourariam todos os prazos, teriam falhas de planejamento e seriam bancadas pelo dinheiro do contribuinte, com participação quase inexistente da iniciativa privada. Dito e feito: sete anos depois, os clichês mais surrados sobre um país que custa a abandonar seus vícios se confirmam, um a um.

O quadro torna-se ainda mais delicado diante de um advento preocupante para o Planalto. Desde as manifestações de junho de 2013, realizadas simultaneamente à Copa das Confederações, a cobrança em relação aos gastos excessivos no Mundial ganhou tons muito mais agressivos e estridentes. A mobilização via internet que promete que “não vai ter Copa” ganhou fôlego (ainda que seja ilusória: vai ter Copa, sim, mesmo que com o Exército ao redor dos estádios, como prometeu Dilma há alguns dias). Os protestos e a truculência dos black blocs foram o assunto da única questão adicionada ao questionário elaborado em 2011 na pesquisa do site de VEJA — na ocasião, ninguém imaginava que haveria risco de vandalismo em torno das arenas do Mundial. Consultados sobre o que deve acontecer no evento, os leitores que participaram da nova sondagem apostaram em protestos capazes de furar bloqueios policiais e chegar aos arredores dos palcos das partidas, causando dores de cabeça aos organizadores. Esse é o cenário previsto por 43% dos entrevistados.

Outros 22% participantes da pesquisa acham que os manifestantes não serão capazes de atrapalhar o torneio, enquanto 22% temem uma situação extrema, em que os protestos ganhariam tamanho impulso que a Fifa teria de recorrer a medidas drásticas, como adiar partidas por falta de segurança. Só 13% acham que a onda de manifestações vai perder força no Mundial. Na virada do ano, a imagem da Copa do Mundo e o risco de uma repetição das cenas de junho foram discutidos em diversas reuniões estratégicas do Planalto. Dilma ordenou uma ofensiva de marketing e comunicação para tentar promover aspectos positivos do evento – afinal, a presidente sabe que uma Copa realizada sob um contexto negativo poderá ter impacto sobre sua tentativa de reeleição. No início do mês, o governo decidiu ajustar o discurso. Com base em uma pesquisa de opinião encomendada para avaliar as manifestações do ano passado, Dilma colocou em segundo plano a defesa dos investimentos em obras da Copa e passou a apelar para o ufanismo do país do futebol. Saiu o “legado”, entrou a “Copa das Copas”, slogan adotado por Dilma nas inaugurações de estádios (e emprestado até por Joseph Blatter e Jérôme Valcke em alguns pronunciamentos). De acordo com reportagem do jornal Folha de S. Paulo, trata-se de uma criação do marqueteiro Nizan Guanaes, surgida numa reunião sigilosa com a presidente. Nizan, aliás, é um dos responsáveis pela campanha “Imagina a festa”, da Brahma, a mesma que retratava Ronaldo como um Tio Sam tupiniquim, num cartaz que estampa uma mensagem com tom de intimidação: “Pessimistas, pensem bem”. Mas eles são a maioria. E a propaganda lançada em 2012, que mostrava uma população eufórica celebrando nas ruas a glória nacional, hoje parece mais fantasiosa do que nunca.

Crédito: Veja

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