Imagina depois da Copa

Torço para que a Copa seja bem bacana. Não por simpatia por CBF, Fifa, Comitê Organizador e respectivos cartolas, nem por governo. Devemos cobrar desse pessoal seriedade, eficiência e transparência. Enfim, obrigações deles pelos cargos que ocupam. Desejo que tudo fique bonito por amor ao futebol e pelo apreço que tenho pela autoestima de nossa gente.

 

Exercício complicado esse de manter fio de esperança no sucesso, a despeito da arraigada vocação que temos para a esculhambação. Há dose maciça de rótulo e estereótipo no papo de jogo de cintura do brasileiro e apelo ao improviso. Como há muito de verdade – o que é chato para chuchu em certas situações. Cansa isso de largar tudo para o que Deus quiser.

Veja o caso dos estádios. Novos, bonitos, confortáveis, a maioria com a sensação de que são iguais por dentro. E caros, muito. Gastou-se grana de fazer inveja aos imponentes monumentos que os romanos erguiam para celebrar a glória das conquistas. Em alguns dos centros esportivos nacionais, por aquilo que se pagou, fica a impressão de que se consumiu mais pedra do que as grandes pirâmides do Egito.

O otimista pode argumentar: “Oba, esses campos vão durar milênios.” No mínimo, serão comparados, no futuro, ao Coliseu. Pensou que chique: historiadores, arqueólogos, homens de ciência, vão debruçar-se sobre Maracanã, Mineirão, Itaquerão, Arena das Dunas, Arena Amazônia, Arena Pantanal e sei lá que raio de arena mais (nomezinho antipático esse) e descobrir os segredos das odes ao desporto do século 21.

Espera aí: o Anfiteatro Flávio (o Coliseu, de Roma), foi inaugurado no ano 80 da era cristã. E aguentou o tranco do tempo, das guerras, das invasões, das depredações. Se os italianos não fossem um tanto relaxados, as condições do monumento seriam melhores.

E os estádios que acabamos de erguer aguentarão o desgaste dos séculos? No Mineirão, novo em folha, três pedaços de calha voaram, no sábado, durante vendaval e chuva. Acidente passível de ocorrer diante da força da natureza. Amigos lembraram que fato semelhante ocorreu no Estádio da Luz, em Lisboa, e que em 2005 a chuva fez um rombo na cobertura do Estádio de Frankfurt, antes de Brasil x Argentina, pela final da Copa das Confederações. Durante minutos, houve uma cascata a despencar sobre um canto do gramado.

Verdade, eu estava lá, ao lado dos colegas Luiz Antonio Prósperi e Sebastião Moreira, a acompanhar o duelo pelo Estado, e vi a água a cair perto de uma das bandeiras de escanteio e próximo dos fotógrafos atrás do gol. Os alemães se envergonharam, pediram desculpas e prometeram que não iria repetir-se. Revisaram todo o projeto.

Mas há um detalhe a ser levado em conta: o incidente aconteceu um ano antes do Mundial. Ou seja, com tempo suficiente para reparos. Por aqui, estamos a 100 dias do torneio. Sempre é bom lembrar, também, que a obra mineira engoliu muitos reais.

O Mané Garrincha não ficou imune a saia-justa. Recentemente, se constataram pontos de infiltração no teto e, consequentemente, de goteiras. A administração imediatamente tratou de consertar e alegou que se trata de falha normal em edificação suscetível de ajustes. Calma lá: um paquiderme que engoliu 1,5 bilhão (por baixo) tem de ser mais impecável do que os palácios da Babilônia, precisa ser um brinco de diamante. Que conversa é essa?

O Itaquerão, palco de abertura do Mundial, deve ficar pronto em maio (previsão da Fifa), ou abril (promessa do construtor). A Arena da Baixada também. Por isso, a Fifa está de cabelos em pé e o Jerôme Valcke dá pinta de que soltará os cachorros pra cima da gente tão logo terminar a farra e a entidade dele levantar acampamento. Desconfio que ele e Blatter demorarão a voltar aqui.

A todo momento, diante de um entrave em aeroportos, hotéis e trânsito, ouvimos a frase: “Imagina na Copa.” Pois, meus amigos, eu me preocupo mais adiante: “Imagina depois da Copa.” Haja pepinos.

Crédito: Estadão – Antero Greco

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