Editorial: Além da condenação

O racismo é tão abominável, que nem os racistas se assumem como tais. Então, é absolutamente pacífico que atitudes como as praticadas contra o árbitro Márcio Chagas da Silva por alguns torcedores presentes ao estádio Montanha dos Vinhedos, de Bento Gonçalves, na última quarta-feira, devem ser condenadas sem contemporização, até mesmo porque se constituem em crime inafiançável e imprescritível pela legislação brasileira. Considerando-se essas premissas, os autores das ofensas e depredações, assim como o clube Esportivo, sob o qual estava a guarda do carro do árbitro, devem ser responsabilizados criminalmente e também pelas leis desportivas. Mas o episódio não pode se encerrar por aí.

Em primeiro lugar, cabe lembrar que fatos semelhantes têm ocorrido com indesejável frequência nos campos de futebol do país e do Exterior. Na verdade, sempre ocorreram, mas nos últimos anos, graças à conscientização maior dos próprios profissionais e aos avanços legislativos em questões sociais, já não passam despercebidos. As vítimas habituais passaram a denunciá-los e as autoridades já não os relevam como no passado. Só para ficarmos com duas ocorrências semelhantes das últimas semanas, vale lembrar que o jogador Tinga, do Cruzeiro, foi hostilizado com gritos e imitações de macaco pelos torcedores do clube peruano Real Garcilaso, em jogo da Libertadores, e o volante Arouca, do Santos, também ouviu ofensas racistas de torcedores presentes no estádio Romildão, em Mogi Mirim.

Aí está um contraste preocupante, que merece ser debatido: as pessoas sabem que manifestações discriminatórias e preconceituosas sobre raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional podem resultar até em pena de reclusão, mas os xingamentos, as imitações e as comparações ofensivas continuam ocorrendo. E não apenas nos estádios. O futebol é apenas uma janela de visibilidade dessa deformação, pela cobertura intensa que recebe dos meios de comunicação. Ironias, anedotas de conotação racial, apelidos e tratamento desrespeitoso em decorrência da aparência física proliferam também em outros espaços da vida social brasileira.

Essa realidade desfaz o mito de democracia racial, criado por historiadores e legitimado convenientemente por governantes e políticos? Não totalmente. A miscigenação no Brasil é uma realidade. O convívio pacífico entre os descendentes das diversas etnias que formaram o nosso povo também é. Afora o período da escravidão, o país não registrou conflitos raciais nem apartheid explícito. Mas o racismo velado se manteve e se mantém, infelizmente, muito por conta de distorções educacionais no âmbito familiar e também no ambiente escolar. Nossa tolerância com pequenos preconceitos, com mecanismos subliminares de diferenciação e até com a sátira racial acaba criando uma cultura da discriminação que invariavelmente resulta em agressividade. Não se pode esquecer que foi o pensamento racista, aquele que leva indivíduos a se considerarem superiores por características físicas, hereditárias e diferenças biológicas, que serviu de pretexto para a escravidão, para o nazismo, para a eugenia e para genocídios de toda ordem.

Não há inocência no racismo. Chamar um jogador de futebol ou um árbitro de macaco é, sim, uma ofensa hedionda, embora revele muito mais a indigência intelectual do agressor do que a suposta inferioridade do ofendido. O racista de estádio é também o homofóbico de estádio, o passional do estádio, aquele que xinga o árbitro e os adversários com os piores palavrões, e depois vai para casa como se nada tivesse acontecido. Nem por isso são atitudes aceitáveis. O olhar preconceituoso gera desconfianças e rancores. A manifestação discriminatória gera reação igualmente excludente, até pelo natural sentimento de autodefesa de quem se vê agredido. Não é por outro motivo que estádios de futebol têm se transformado em praças de guerra, ocasionalmente até com mortos e feridos.

Não precisamos conviver com esse ódio. Temos que extirpá-lo dos estádios de futebol e das nossas vidas. Se os racistas merecem condenação por suas ações criminosas, o racismo merece uma atenção ainda maior de todos nós, para que possamos atacá-lo na sua origem e construir uma cultura de tolerância para as próximas gerações. A educação familiar – com o exercício da tolerância e menos transigência com piadinhas, palavras e gestos discriminatórios – é um bom antídoto preventivo para essa praga que assola o país.

ZERO HORA

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