QUE SAUDADE DO CATARINA! (Zé Domingos)

JORNALISTA SABRINA DEMOZZI

QUER SABER SOBRE A CHURRASCARIA

“COSTELÃO DO CATARINA”

Zé Domingos

          Dias passados recebi telefonema e depois mensagem da jornalista Sabrina Demozzi do Temperomental Blog – Gastronomia Produção de Conteúdo e ela informa ter lido uma matéria em que fiz referencias sobre a churrascaria “Costelão do Catarina” que durante anos fez grande sucesso em Curitiba, região do Portão com a casa seguidamente lotada e frequentada por pessoas de todos os setores de atividades, moradores em diferentes pontos de Curitiba, região metropolitana, cidades do interior e de outros estados.

A casa era mesmo um sucesso e o teve por vários anos principalmente nos anos 70 e 80 com movimento extraordinário. Serviu de local até mesmo para importantes decisões políticas. Ainda seguiu por mais algum tempo, mas não com aquela movimentação dos anos mencionados.

A jornalista diz estar elaborando material para um livro e a churrascaria dirigida pelo João Simas, o João Catarina como era chamado carinhosamente será destaque.

Ela encaminhou uma série de perguntas e vou respondê-las destacando que tudo que escrevo vem do “arquivo mental”, de momentos que vivi, situações que acompanhei, não tenho acervo, não é material de pesquisa, enfim me baseio em recordações e dentro delas apresentarei as respostas. Pelo exposto mencionar datas foge de minhas possibilidades.

Antes de começar a responder as perguntas da Sabrina cito que ouvi falar pela primeira vez da costela do João Catarina, num sábado à tarde possivelmente nos idos de 1974 após ter disputado uma partida de futebol “a pelada de sábado” quando fazia sauna no Ginásio Hercules, uma academia de ginástica localizada na Avenida Marechal Floriano entre as ruas XV de Novembro e Marechal Deodoro.

Em meio ao bate papo houve quem comentasse que tinha comido uma costela deliciosa na Sociedade Cultural do Portão no começo da Avenida João Betega defronte a igreja. Elogiou e elogiou muito. Disse que o atendimento só acontecia as sextas feiras.

Por achar a carne de costela deliciosa, porque não dizer a mais gostosa reuni alguns casais amigos para conhecer e saborear a costela tão comentada. Seguindo a orientação chegamos no começo da noite e já havia muita gente jantando. Inúmeras pessoas aguardavam mesas. Pouco depois um senhor que estava assando as costelas deixou o posto e veio conversar conosco, apresentando-se como o comandante do restaurante. Identificou-se como João e mostrando-se comunicativo, bem como simpático disse ser João Simas, mas que o pessoal se acostumou a chamá-lo João Catarina por ter vindo de Itajaí, a cidade portuária de Santa Catarina..

Logo nos encaminhou para uma mesa e passamos a ser servidos com a costela sendo trazida até a mesa em mantas sendo cortada e servida conforme o gosto do freguês. Um sistema que logo chamou atenção. Ficamos por lá horas e não parava de chegar gente.

Os garçons atenciosos, saladas deliciosas com cebola, tomate, alface, maionese e outras. A costela realmente sensacional. À partir daquele dia praticamente em todas as sextas feira durante anos a visita ao Costelão do Catarina na Sociedade Recreativa Cultural do Portão bem defronte a igreja do Portão era obrigatória.

A amizade com João, sua família, garçons e funcionários se solidificou. Depois de algum tempo no salão da sociedade João resolveu construir sede própria para o seu comércio e se transferiu para os fundos do Centro Comercial do Portão e do Clube Literário de Curitiba. Num prédio que construiu estabeleceu a área da costela no andar térreo, primeiro andar salão de festas para casamentos, aniversários e outros tipos de eventos onde servia um cardápio diferenciado. O local passou a ser bastante requisitado.

Mas, o importante é responder as perguntas da Sabrina e vamos lá –

1 – Á partir da leitura do seu texto fica claro a importância da presença do Sr. João para a “fama” do costelão. O que o senhor pode destacar neste sentido?

 O João trouxe para Curitiba uma nova concepção em churrascarias, pois o seu estabelecimento não servia outros tipos de carne, só costela mesmo. A costela era trazida para as mesas em mantas e ali cortada e servida. O assador era o próprio João que colocava as costelas no calor das brazas bem distantes para irem assando lentamente  e ficarem no ponto para serem servidas no começo da noite, antes do meio dia. Mais ou menos oito horas de fogo.

 As costelas não eram fervidas como alguns faziam e fazem até hoje, elas amoleciam e ficavam suculentas pelas horas de fogo. Ele tinha auxiliares competentes e pelo jeito de ser, de tratar dele se tornaram amigos e assim não mediam esforços para que a clientela saísse satisfeita.

O João um relações público perfeito ia de mesa em mesa, conversava com os fregueses sobre diferentes assuntos, sempre mostrando alegria e disposição. Guardava com facilidade os nomes das pessoas e assim o sucesso cada vez maior.

A participação dele foi fundamental para o êxito do Costelão do Catarina que ultrapassou fronteiras, sendo inclusive contratado para servir no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e até Minas Gerais em várias oportunidades. O João dentro de sua simplicidade contava com orgulho as suas façanhas como assador de costelas por aí afora.

O seu estabelecimento recebia governadores, prefeitos, senadores, deputados, vereadores, secretários de estados, ministros, jornalistas, radialistas, jogadores, dirigentes de futebol, figuras importantes da sociedade, era um verdadeiro ponto de encontro nas sextas feiras. Parece que Curitiba combinava para se encontrar no costelão do João Catarina. Pena que de tanto trabalhar o João passou a ter problemas de saúde e teve que se afastar, mas a casa continuou bem durante algum tempo.

Na sequencia evidentemente sentiu a falta do pulso firme do chefe e mudou a forma de atendimento. Com isto foi caindo e com o passar do tempo fechou. João por recomendação médica foi residir em Camboriú é “subiu antes do combinado”. Ele deixou história entre os restaurantes de Curitiba. Sua influência foi extraordinária fazendo com que várias casas mudassem suas formas de servir e atender. Mudassem seus conceitos.

2 – Sobre as suas memórias deste estabelecimento o que o senhor comeu e não esquece? Qual era o momento histórico de Curitiba na época do restaurante?

Como destacado a especialidade era a costela e até hoje não se encontra em Curitiba uma costela como a do João Catarina. Têm boas, mas como a do João não. Na grande fase do estabelecimento o governador era  Ney Braga e o prefeito de Curitiba Saul Raiz e eles seguidamente o frequentavam, tinham ótimo relacionamento com o proprietário.

Depois Jaime Canet Júnior (governador), Jaime Lerner (prefeito), Roberto Requião (governador), Mauricio Fruet (prefeito), Rafael Greca, Cássio Taniguchi (prefeitos) também estiveram por lá muitas vezes.

Na época havia dois partidos políticos ARENA e MDB e normalmente políticos se encontravam na casa e as conversas corriam soltas. Até composições e entendimentos surgiram de diálogos ao sabor da costela do João Catarina. Eu mesmo na época vereador e depois deputado estadual desenvolvi inúmeros contatos no restaurante. Era mesmo uma referência em Curitiba.

3 – O senhor refere-se ao local como uma “senhora” churrascaria. Neste sentido ela destaca-se pelo pioneirismo , pela tradição ou por se tratar de churrascaria mesmo (voltada a carne mesmo sem invencionices)°

Quando surgiu estava instalada num local não preparado exatamente para ser uma churrascaria e teve que receber adequações. As churrasqueiras ficavam junto ao salão e o público as observava de perto. Os assadores, o pessoal da cozinha ficava na frente dos clientes, ocorrendo uma integração interessante.

Um ambiente simples, mas extremamente aconchegante. Dava um toque especial e o pessoal tinha liberdade para conversar, trocar ideias e pedir a carne do jeito de sua preferência.

Depois quando mudou para a sede própria a tradição das churrasqueiras a frente do público próximo ao salão com acesso às mesmas foi mantido. Procurou se dar ao ambiente o mesmo clima de costume.

Ao citar uma senhora churrascaria não é pelo requinte e sim pela qualidade da comida, do atendimento, da amizade entre frequentadores, funcionários, proprietário e seus familiares. Um ambiente amigo e familiar, onde o pessoal se sentia muito bem e ficava horas comendo e bebendo tranquilamente. Tudo era feito com simplicidade e bom gosto, sem invencionices.

4 – Dos restaurantes do período qual a sua lembrança em relação ao hábito de comer fora como atividade de lazer? O que podemos dizer que mudou em Curitiba neste sentido?

Naqueles áureos e românticos tempos, Curitiba era uma cidade pacata onde quase todo mundo se conhecia e não tínhamos os problemas de insegurança dos dias de hoje. O número de restaurantes era pequeno e havia alguns que se destacavam e assim atraiam o público.

Naquele tempo havia o dia da costela normalmente as sextas feiras com destaque para as costelinhas borboletas servidas no Botafogo das Mercês e no Caça e Tiro da Rua Ubaldino do Amaral, também as quartas feira se servia costela, mas o forte eram os filés com fritas oferecidos por várias casas. No horário de almoço as quartas feiras e sábados a feijoada.

No centro havia excelentes churrascaria como Bambu, Tupã, São João Guarujá, Tempô, Espeto de Ouro e outras bem como restaurantes como Nino no vigémio andar de um edifício localizado na rua Pedro Ivo ao lado da Gazeta do Povo, Rio Branco na Rua Barão do Rio Branco entre Marechal Deodoro e Rua XV de Novembro, Gruta Azul, na Marechal Deodoro embaixo das Lojas Betega entre Monsenhor Celso e Marechal Floriano, Tingui e Paraná, na Rua XV de Novembro, Ille de France, na Praça 19 de Dezembro, Confeitaria Iguaçu na Praça Osório, Cometa na Rua XV de Novembro e outros.

Havia o dia da dobradinha ou buchad, o dia da sopa. A sopa húngara o carro chefe do tradicional e ótimo restaurante Paraná na Rua XV de Novembro, no Pinheirinho destaque para a Churrascaria Gaucha, no Xaxim as quintas feiras na Sociedade Cinco de Julho um jantar com comida italiano concorridíssimo, os restaurantes de Santa Felicidade sempre movimentados, em sociedades como na Água Verde ótimos restaurantes.

Era normal famílias ou grupos de amigos se reunirem para jantares, bem diferente dos dias de hoje que é tudo mais comercial, mais formal. Antigamente tudo era amigo, aconchegante e acolhedor. Os proprietários eram conhecidos, ficavam em meio aos fregueses como a família Gusso que comandou o restaurante da Sociedade Cinco de Julho, no Xaxim durante anos passando depois para a família Nardino quê também, ficou anos por lá bom tempo. A família Gusso montou a Risotolandia junto a residência de dona Cenira e seu Carlito os pioneiros na Rua Francisco Derosso, logo após a BR – 116 quando a pavimentação era ainda em saibro, depois se transferiu para a Sociedade Morgenau.

Nas proximidades na BR 116 tinha a Churrascaria Três Fazendas liderada pelo Roque Pasetti hoje a frente da Gaucha, a churrascaria do seu Lido que passou por vários endereços inclusive pela Sociedade Água Verde, churrascaria do Matana na sede do Belmonte na Avenida Kennedy, Cavalo Branco, na Água Verde, Vovô Juca na Avenida Visconde de Guarapuava, Cabanha na Praça Espanha, restaurante de alto nível na Sociedade D. Pedro II, ali próximo a Churrascaria Boi na Brasa, Espeto de Bacalhau, Bangalô, em Santa Felicidade, Mitoca, Carreteiro na Avenida República Argentina e tantos outros que deixaram saudades.

O Palácio o famoso “fumaçinha” assim chamado pelo filé ser assado numa churrasqueira que ficava no meio do salão e com isto a fumaça subia às vezes tomando conta do espaço dando um aspecto especial a casa com aquele cheiro saboroso da carne assando. Era a casa do pessoal da madrugada, ficava aberta a noite toda, uma tradição da cidade e que hoje funciona na Rua André de Barros no mesmo sistema, mas não fica mais aberto a noite toda, pois os tempos mudaram. Restaurante do Luiz na Rua José Loureiro, Edifício Mauá, ao lado do jornal Diário do Paraná e da TV Paraná – Canal 6,  outro dos madrugueiros e o Paris na Rua Riachuelo também. Poderia citar mais, mas vou ficando por aqui, pois já me alonguei demais.

5 – E finalmente como era frequentado o Costelão: famílias, jornalistas, boêmios. Como era a sociabilidade neste espaço?

Praticamente respondi em colocações anteriores, mas a frequência tinha grande presença familiar. Quando na sociedade nos jantares das sextas feiras grupos de famílias eram normalmente observados, grupos de amigos igualmente, um ambiente estritamente familiar. Depois que mudou para a sede própria passou a atender todas as noites daí mudou um pouco, mas de uma forma geral era uma casa frequentada por famílias e grupos de amigos. Políticos, jornalistas, radialistas, artistas, empresários pessoas ligadas ao futebol e outros esportes também frequentavam assiduamente o Costelão do Catarina que repito durante anos foi um verdadeiro ponto de encontro de Curitiba.

José Domingos Borges Teixeira

(Zé Domingos)

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