Nanicos e revolucionários

Em 13 de maio de 2013, durante um evento do núcleo de Jornalismo e Ditadura Militar, da UFPR, a jornalista e pesquisadora Elza de Oliveira Filha, que atua na Universidade Positivo, lançou um desafio: já são horas de estudar a importância do jornal Voz do Paraná para a imprensa local durante os “anos do chumbo”.

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Confira mais informações sobre o jornal Voz do Paraná e fotos de exemplares antigos

Cronologia

O jornal Voz do Paraná circulou por 48 anos e teve seu ápice na década de 1970, quando flertou com a imprensa alternativa e driblou os rigores da censura imposta aos jornalões:

1956 – O arcebispo dom Manoel da Silveira Delboux funda o Voz do Paraná e o passa para os missionários claretianos, que vão dirigir o jornal por 12 anos, 616 edições. Oficina e redação funcionam no bairro Rebouças. O diretor padre Wanderlan Lombardo Gama vai dar fama ao semanário. Anos depois, laicizado, Wanderlan trabalha no jornal O Estado de S.Paulo.

1961 – Com diagramação pesada, fios vermelhos – influência do popular Última Hora – circulava semanalmente com 15 mil exemplares, 10 páginas, formato tabloide. No período, onipresença de matérias tratando de comunismo e juventude – alertando para a má influência de professores –; preocupação com os avanços da dissidente Igreja Católica Brasileira e com o fascínio da Revolução Cubana. Jornal faz campanha pelo ensino religioso nas escolas.

1964 – Circula em formato standard. Editorial permanece armado contra Cuba, mas aberto a temas sindicais, ao debate sobre a influência dos meios de comunicação, combate ao analfabetismo e à fome. Discute avanços na psiquiatria. Destaque para os textos do monge Fulton Sheen e suas discussões sobre o ateísmo moderno; e para a visita a Curitiba do padre americano Patrick Peyton, debaixo do bordão “família que reza unida permanece unida”.

1966 – Manchete destaca o Ato Institucional Nº 3, sem comentários a respeito, passando a impressão de obrigatoriedade.

1968 – Grupo de seis leigos liderados pelo radiologista Roaldo Koehler compra dos missionários claretianos o jornal Voz do Paraná e cria a gráfica Evopar. Passam a ser duas empresas. Semanário será transferido para a Rua Francisco Scremin, 1.855, no Ahú, e passa por modernização. Com os jornalistas Aroldo Murá e Celso Nascimento à frente, empresa contrata bons jornalistas – alguns deles rejeitados pela grande imprensa por causa das ligações com a esquerda. Censura à Voz… foi branda, mas o jornal recebeu visitas regulares dos censores.

1977 – Jornal debate questões caras à Igreja Católica – como a movimentação contra a aprovação do divórcio – e pela agenda da Igreja mais à esquerda, como a reforma agrária, direitos dos índios e meio ambiente. Série Roda Viva, de entrevistas, permanece a nata da publicação. Diagramação assinada por Reynaldo Jardim faz do semanário o mais arrojado da cidade. Circulação chega a 20 mil exemplares e atinge cidades do interior.

1981-2004 – Morre o médico Roaldo Koeh­­­ler. Voz… passa em definitivo para o jornalista Aroldo Murá e depois para Antônio Senival Silva, que o vende para a Universidade Católica. Jornal deixa de circular em 2004. Deixou para a história da imprensa furos de reportagem, como a imposição de senadores biônicos no regime militar, corrupção no Tribunal de Justiça, a publicação de longas entrevistas e uma excelente cobertura de direitos humanos.

A Voz… fez resistência ao regime militar?

Talvez

O jornalista Milton Ivan Heller, autor de Resistência De­­­mo­­­­crática, a Repressão no Paraná (Paz e Terra, Seec, 1988), lembra que foi para o Voz do Paraná na década de 1970, depois de enfrentar problemas em outros veículos do estado. “Achei que ninguém ia me incomodar lá… Não foi o que aconteceu. Arrumei briga por lá”, diverte-se. Acabou indo para a Rede Globo de Minas Gerais, cobrir esportes, “destino de muitos jornalistas com problemas políticos”. Resume a ópera com a frase: “O Voz do Paraná fazia bom jornalismo. É o que importa.”

Não

Durante uma década – entre 1972 e 1982 – o jornalista Celso Nascimento foi o editor chefe do jornal Voz do Paraná. Formava um “núcleo duro” da redação ao lado dos colegas Maí Nascimento e Benedito Pires. Ao lado de Aroldo Murá, Celso é o maior conhecedor do semanário. Na sua opinião, a Voz… cumpriu todos os protocolos da chamada imprensa alternativa, mas nunca foi um jornal de esquerda, mesmo abrigando tantos comunistas. “Era de Igreja e tratava de temas da pauta eclesial”, pontua.

Não

Maria Luiza Nasci­­­mento, a Maí, trabalhou cinco anos no jornal Voz do Paraná, na fase áurea do semanário, os anos 70. “O Benedito Pires era um avião”, diz, referindo-se ao profissional de esquerda mais visado do jornal, ao lado de Teresa Urban. Mas considera “forçar a mão” elencar o jornal entre os “pequenos e revolucionários”, tal como é entendida a imprensa alternativa no combate à ditadura.

Para Maí, “foi aconte­­­­­cendo, meio ao acaso, sem planejamento”, explica, sobre uma prática comum na imprensa de então: um colega foi trazendo o outro, formando a redação que marcou a imprensa do estado.

Sim

A jornalista Dinah Pi­­­­­nheiro Ribas trabalhou na Voz do Paraná de 1.º de abril de 1973 a 1.º de junho de 1975. Admite que o jornal não peitava a ditadura. Não falava nada contra o governo militar, mas estava pautado nas ideias da esquerda. “Era uma redação pequena, na qual havia liberdade, e onde trabalhou o Milton Heller, o Benedito Pires, o Francisco Alves dos Santos e a Teresa Urban. O que dizer mais?”, pontua. Para Dinah, uma das características da resistência ao regime era manter os simpatizantes a postos, fazendo o meio de campo, de modo a driblar a repressão. A Voz… cumpriu esse papel. “Aquela experiência foi um encontro de felicidades em meio à ditadura.”

A declaração foi recebida com misto de surpresa e desdém. “A Voz…”, como se dizia, era um semanário “catolicão” vendido nas paróquias depois da missa de domingo ou recebido nos lares confessionais, via assinatura. Embora não fosse propriedade da Cúria Metropolitana, seguia a cartilha da instituição. E a Arquidiocese de Curitiba estava a anos-luz de territórios de oposição ao regime, a exemplo da Prelazia de Conceição do Araguaia, onde atuava o “subversivo” dom Pedro Casaldáliga.

À primeira vista, o Voz do Paraná poderia ser tudo, menos um dos 300 jornais nanicos – expressão da época – que combateram a ditadura entre 1964 e 1979, ano da Anistia. O semanário curitibano, inclusive, não aparece nem nos rodapés de três importantes estudos do período, como Jornalistas e Revolucionários: nos Tempos da Imprensa Alternativa, de Bernardo Kucinski (Edusp, 1991); Jornalismo de Guerrilha, de Rivaldo Chinem (Disal, 2004); ou Resistir É Preciso (2011), trabalho de fôlego do Instituto Vladimir Herzog, que fez 60 gravações em vídeo com jornalistas, designers e camicases do período.

A falta de referências, contudo, em vez de invalidar torna mais curiosa a provocação de Elza de Oliveira Filha – pesquisadora reconhecida e ela mesma, mesmo tendo lido mais sobre Marx do que salmos, um dia frila em Voz do Paraná.

Às evidências: o jornal nasceu em 1956, da cabeça do arcebispo dom Manoel da Silveira Delboux, um entusiasta da Ação Católica e da imprensa como instrumento da propaganda da fé. Em seu posto anterior, no estado de São Paulo, o religioso comprou o jornal Diário de Notícias. Ter um impresso no seu novo endereço parecia natural. Assim se deu.

Na fase Delboux, a Voz… foi entregue aos missionários claretianos – cujo missão inclui atuar nos meios de comunicação social – e funcionava numa gráfica da Rua Nunes Machado, 975, atrás da Igreja do Coração de Maria, no bairro Rebouças. Além do noticiário e da rotina paroquiana, o jornal tinha como maior obsessão alertar contra os perigos do comunismo e, por tabela, dos comunistas infiltrados nas escolas e na política. A Revolução Cubana, em 1959, só fez aumentar a campanha.

Essa conversa só faz a curva em 1968, quando um grupo de médicos católicos – membros da Congregação Mariana, em sua maioria – compra dos claretianos o Voz do Paraná. À frente dos novos proprietários estava o radiologista Roaldo Amundsen Koehler, tão conhecido na cidade que se dizia que 90% da população tinha feito “chapas” com ele.

O fotógrafo e psicanalista Paulo Koehler, um dos sete filhos de Roaldo, acredita que o pai abraçara a medicina, mas que desejava mesmo era ser jornalista. Ainda guarda um jornal feito à mão nos tempos em que o radiologista estudava no Colégio Santa Maria. Em miúdos, a Voz…, que poderia ser uma ação pastoral e piedosa, nada mais, se torna a “razão de viver” do doutor Roaldo, tomando aqui emprestada a expressão famosa do publisher Samuel Wainer.

Roaldo chama para dirigir o semanário ninguém menos do que Aroldo Murá G. Haygert, espécime raro no jornalismo. Sabia latim. Conhecia encíclicas do Vaticano II. Estava gabaritado para ocupar a burocracia vaticana, caso fosse permitido, o que por certo adoraria. Talhado para o posto de diretor da Voz…, o professor Aroldo, como é chamado, mesmo sem ser uma unanimidade na classe, tinha outra qualidade: contratou para a pequena redação quem achava ter talento para as lides jornalísticas, à revelia da ideologia que professava. Fez história.

Lista

A “lista de Aroldo” inclui profissionais que passaram a ser banidos das demais redações do estado nos cinzentos dias do AI-5, a partir do final de 1968. De modo que mesmo sem ter sido a rigor um nanico revolucionário do naipe de Opinião, Movimento ou mesmo do similar católico O São Paulo, um dos muitos atos de coragem de dom Paulo Evaristo Arns, a Voz… abrigou a esquerda paranaense, nas suas mais diversas matizes. De iniciantes a iniciados, passando pelos festivos e distraídos.

No período mais pesado da repressão, passaram pelo jornal o então veterano Milton Ivan Heller, ex-Última Hora, “comunistão”, hoje principal referência em jornalismo e ditadura militar no Paraná; esquerdistas respeitados, como Luiz Manfredini e Benedito Costa – um foragido no Paraná dos comandos de caça aos comunistas; candidatos ao desbunde e à psicodelia, como o cartunista e cronista Dante Mendonça, o publicitário José Oliva, o poeta e jornalista Jaques Brand, o escritor Valêncio Xavier, Paulo Marins e Toninho Vaz, que viria a se tornar o biógrafo de Paulo Leminski.

O elenco explosivo passa por Francisco Alves dos Santos, Aramis Millarch, Walter Schmidt, Ruth Bolognese, Dinah Pinheiro Lima – que morava no segundo andar da Casa da Estudante, o que dizia tudo sobre qual era a sua turma. E pela jovem ilustrada Maí Nascimento. Mesmo sem ser explicitamente de esquerda, Maí tinha voltado de um sabático na Europa trazendo na bolsa o Livro Vermelho de Mao. Estava apta a integrar a equipe da Voz, no qual foi uma das principais redatoras por cinco anos, editora de uma das pratas da casa – o Roda Viva, página semanal de entrevistas. É com folga um dos melhores capítulos da imprensa paranaense.

Teresa

Ao bater o olho na lista de chamada do semanário, os olhos param no ano de 1977, quando foi contratada Teresa Urban, símbolo da resistência à ditadura no estado, presa política e um caso típico de repórter sem emprego. Até o final de sua vida – Teresa morreu em junho passado, aos 67 anos – teve problema com o tal de Atestado de Bons Antecedentes. Ninguém queria contratá-la. Roaldo e Aroldo deram de ombros e a chamaram para a pequena redação da Rua Francisco Scremin, perto da Sociedade Urca.

Em depoimento dado aos alunos do curso de Jornalismo da UFPR, em abril do ano passado, Teresa Urban contou que tinha saído da cadeia, dois filhos para criar e precisava pagar as contas. “No final, vejam só, a Igreja me salvou”, brincou. A jornalista ficou dois anos presa num convento – das vicentinas – graças à interferência de dom Pedro Fedalto. E teve seu primeiro emprego num jornal católico. Dali saltou para se tornar uma das pioneiras da imprensa ambiental e escritora de 20 livros.

Teresa, Manfredini, Heller, Dinah, Maí e outros guiaram a pauta de Voz do Paraná para a esquerda? Fica a pergunta sobre como Roaldo Koehler lidava com sua heroica redação talhada para a guerrilha – e para a contracultura. E qual o papel do semanário numa imprensa que tendeu à autocensura e que deu pouco trabalho aos censores da Polícia Federal. Como bem alerta Elza de Oliveira Filha, já são horas…

A república socialista do doutor Koehler

“Ai meu Deus, essa Teresa ainda vai me dar dor de cabeça…”, disse o médico radiologista Roaldo Amundsen Koehler, atirando-se ao sofá, ao se dar conta do que significava ter a ex-presa política Teresa Urban no quadro de funcionários de seu jornal, o Voz do Paraná. O episódio deve ter se dado por volta de 1977 e ainda hoje arranca gargalhadas do fotógrafo Paulo Koeher, filho de Roaldo.

Motivos, a rodo. Roaldo – batizado assim em homenagem ao expedicionário que desbravou o Polo Sul, em 1911 – era um católico aguerrido, desses prontos para o martírio. Nem mesmo os entreveros com a arquidiocese e a falta de apoio ao seu jornal amarelaram a fé. Congregado mariano, podia ser rotulado de um católico conservador. Execrava o comunismo. Respeitava o Vaticano. Tinha entre seus amigos o filologista Rosário Mansur Guérios e o poeta Tasso da Silveira. A justificativa para ter tantas Teresas nas suas fileiras era que se curvava a quem não pensava como ele e professava a justiça social.

De acordo com depoimento do jornalista Aroldo Murá, mesmo sendo um católico alinhado à direita, Roaldo tinha ligações com a turma do jornal católico O São Paulo – um dos mais combativos da era da imprensa nanica. E recebia informações sobre os porões da ditadura por meio de um dos homens a quem mais admirava – dom Paulo Evaristo Arns. Mesmo com tantas cascas de banana, escapou da vigilância do Departamento de Ordem Política e Social, o Dops. Não foi fichado, confirmando a tese de Aroldo e companhia: quem desconfiaria de um homem como Roaldo? Chegaram a lhe perguntar “o que estava ganhando com aquilo…”, mas ficou por aí.

Na vida comum, era homem de leitura, piedade, trabalho pesado – foi secretário de saúde no governo Bento Munhoz da Rocha na década de 1950 e diretor clínico do Hospital Nossa Senhora das Graças. O que ganhava em espécie fazendo abreugrafias ia para seu sonho – o jornal Voz do Paraná, obra que lhe consumiu todas as energias e economias. Quando se desfez da empresa, nos anos 1980, não tinha mais de onde tirar dinheiro. Morreu aos 66 anos, em 1981, quase cego, em decorrência de uma diabetes. Paulo não lembra de tê-lo visto sair de casa sem terno e gravata – ou de ouvi-lo dizer palavrões. E se acha graça do “episódio Teresa”, é porque poucas vezes viu Roaldo se destemperar.

“Ele gostava dos textos do Paulo Marins e do Jaques Brand. E destacava a inteligência do Aroldo Murá. Fazia um jornal. Trancava-se na sala dele para escrever editoriais, depois do expediente. Queria trabalhar com os melhores, era natural”, lembra Paulo Koehler sobre um sujeito muito particular que, talvez sem querer, escreveu um capítulo da imprensa local.

Crédito: Gazeta do Povo

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