Alegria

João Cabral de Melo Neto tinha dores de cabeça constantes e, num poema célebre e excelente a respeito, chamou a aspirina de “o mais prático dos sóis”. Como cada um toma o remédio que precisa e tem o talento que lhe cabe, me resta escrever um texto cheio de citações pedantes sobre o Labirin.

Trata-se do nome comercial do dicloridrato de betaistina, usado para aliviar sintomas de labirintite. Que, por sua vez, é o nome popular para vários possíveis e específicos problemas do labirinto, órgão que fica no ouvido. Tenho tido crises do gênero nos últimos anos, menos ou mais intensas, com diagnóstico até hoje não definitivo. A mais recente e pior delas, da qual já melhorei uns 83%, começou com dias longos de tontura, náuseas, zumbido e dificuldade de equilíbrio.

Estar doente é uma experiência bastante observada e compartilhada. De Filoctetes ao Cadu da novela, há enfermos para todo gosto na mitologia, na arte, no noticiário. Mas não interessam aqui os males incapacitantes ou fatais deste tipo particular de relato, e sim a perspectiva de quem vive -e este futuro vai ficando claro na minha idade -com o que o eufemismo médico chama de “desconforto”.

No caso da labirintite, além dos sintomas, aos quais o paciente se acostuma aos poucos (enquanto o labirinto reconstitui sua dignidade, num milagre plástico de teimosia), o desconforto se traduz na falta. De algo tão banal, como tomar um café depois do almoço. De álcool. De chocolate. De comer na hora em que se quer, com sal e gorduras à vontade. De andar de avião sem temer chegar surdo à aterrissagem.

Também numa consciência atípica de movimentos. Até a primeira crise, eu não percebia a elegância complexa do labirinto, sua mecânica de fluidos misteriosos que tornam possível o que durante os piores dias soa como nonsense violento —desfilar de salto numa passarela, nadar, deitar de bruços, caminhar num fio de aço entre as torres gêmeas (como fez o francês Philippe Petit), passar 90 minutos tomando encontrões de zagueiros e se manter em pé (como fazia o meia Valdo, do Grêmio e da seleção).

Há um texto de J.M.Coetzee que fala dessa consciência, apenas invertendo o sinal e mudando o exemplo: “Ser plenamente morcego é igual a ser plenamente humano, o que quer dizer (…) estar cheio de ser. Ser-morcego no primeiro caso, ser-humano no segundo, talvez, mas essas considerações são secundárias. Estar cheio de ser é viver como corpo-alma. Nosso nome para a experiência de ser pleno é alegria”.

Quando se tem gastrite ou gota, o corpo pesa demais para que nos voltemos inteiramente à alma. A plenitude do ser depende de uma saúde neutra. É esta alegria coetziana, contraditoriamente, que nos clareia o caminho —um sol como a aspirina, a nos devolver a capacidade de concentração e abstração- para divagar de forma romântica, niilista ou como se queira, sobre temas aí sim distantes como a finitude, o deus ausente ou morto, o horror aleatório do universo.

Enquanto duram as crises, os objetivos são bem menos ambiciosos. E, à sua maneira, trazem mais otimismo -se considerarmos este um ramo das ações práticas. Abrir os olhos de manhã. Mexer devagar o pescoço. Sentar na cama. Olhar para um ponto fixo até que a vertigem se torne uma sensação curiosa, uma mistura de pressão e cabeça oca que vai passar —dando lugar a uma ilusão de cura— lá pelo meio da tarde. E aí você levanta para mais uma jornada.

Susan Sontag alertou para o risco de simbolismos em torno de condições meramente físicas (a tuberculose como mal de sonhadores, o câncer como efeito de repressão) que podem tornar o paciente responsável pela própria doença. Também sobre as metáforas de guerra (os anticorpos como soldados, as bactérias como exército inimigo) que transferem à vítima o dever de “lutar” contra algo que a derrotará inevitavelmente.

Para o portador do desconforto, lições assim talvez soem um pouco extremas. Prefiro a sabedoria direta de Brás Cubas: nada melhor do que usar um sapato apertado e depois tirá-lo.

Nas primeiras crises que tive, tomei remédios que me mandaram para um limbo entre o coma consciente e o armagedom.

Agora, com duas pílulas ao dia e um diurético, estou quase totalmente descalço.

Obrigado, Labirin.

 

Michel Laub é escritor e jornalista. Publicou seis romances, entre eles ‘Diário da queda’ (2011) e ‘A maçã envenenada’ (2013), ambos pela Companhia das Letras. Escreve a cada duas semanas, sempre às sextas-feiras.

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